5.5.12

Senhor portageiro...


Quinta, quarta, terceira..
..vamos pôr isto em ponto morto que o carro chega ao fim da fila sozinho. 

E é assim que começa a azáfama da portagem para a ponte que um senhor, cujo nome é frequentemente utilizado na minha cozinha aquando a preparação de um delicioso bolo, decidiu mandar construir.

Primeiramente vem o baixar do volume da música, depois abre-se a janela do condutor e pede-se aos céus que o carro não vá abaixo cada vez que tenho de pôr a primeira e andar três milímetros.

(No dia em que me armei em esperta e decidi esperar mais um pouco para avançar ouvi uma buzinadela do automóvel de trás que até me estremeceram as cúspides dos terceiro molares superiores.)


A procura exaustiva da carteira no meio de uma mala atafulhada de coisas e a coordenação dos meus pés nos pedais ao mesmo tempo que calculo o espaço entre o meu carro e o carro da frente faz os primeiros suores surgir atrás da minha orelha esquerda que está a ser queimada pelo sol.

Nisto, finalmente chega a minha vez de pagar a módica quantia de um euro e cinquenta e cinco cêntimos (UMA ROUBALHEIRA!).

Estico a minha mão com as moedinhas contadas trezentas milhões de vezes e BOM DIA, digo eu toda simpática para o homenzinho trombudo enfiado lá naquele cubículo. O senhor decide não me responder. Em vez disso, estica o seu braço e num gesto brutesco raspa aquilo que parecem bicos de tesouras afiadas a rasgar a minha pele e apanha o dinheiro guardado na palma da minha mão.



 
E foi neste dia que eu deveria ter dito:
"Senhor portageiro, já cortava a unhaca, não?"







e NISTO...

 ...FUI!

1.5.12

Dói o pezinho!




Sim, eu gostava de dizer, vaidosamente, que faço parte daquilo que é a Academia de Lisboa, mas orgulho não é propriamente o sentimento que fica depois de assistir à suposta Monumental Serenata da semana académica de Lisboa.

Uma indecente rebaldaria ornamentada com egoísmo, desrespeito e acima de tudo muita falta de valores.

A serenata é aquele momento em que as baladas das tunas fazem os padrinhos e os afilhados envolverem-se no seu primeiro traçar de capa ao ponto de os olhos se tornarem pontos de passagem das Tágides. Esta serenata foi tudo menos isso. A única choradeira que eu vi, proveio de uma caloira decadente a berrar que nem uma cabritinha por estar num estado de embriaguez incontrolado. E claro que a Serenata também é o palco ideal para pindériquices como dar chapadas ao ex-namorado.

E depois ainda se queixam que a praxe é demasiado dura. Quem não tem estofo para a praxe, não tem legitimidade para envergar o traje. E é por isso que o primeiro ano de praxe é tão importante para incutir valores que certas pessoas não têm.
Se antes se celebrava a inteligência dos universitários nestes eventos académicos, onde envergar o traje era um símbolo de maturidade e conquista de um lugar digno na sociedade. Hoje, pelo que presenciei, ontem na serenata de lisboa, envergar o traje académico é, para muita gente, como vestir um fato de treino e ir dar umas voltinhas por aí...

E devia, também, referir a triste escolha do local para a Serenada mas, sinceramente, com este tipo de comportamentos, até o local era mais digno que as pessoas.

Tenho muita pena em dizer isto, mas ontem senti-me envergonhada de estar trajada no meio de pessoas assim.

E é nestas altura que eu agradeço ao Minotauro por a nossa faculdade ter uma serenata privada, onde o momento é realmente encarado com respeito e decência.





e NISTO...

 ...FUI!

23.4.12

Enfim, o amor aconteceu.




Anos de procura exaustiva, mas nada satisfazia as minhas exigências. High standards, dizem uns; Pancada, digo eu. E com isto, muitas coisas se vão perdendo pelo caminho; oportunidades que nem em saldo são viáveis, consentimentos infelizes e uma frustração entristecedora que é completamente escusada. E tudo porque não havia uma porcaria de uma loja baratucha que me quisesse vender um yo-yo com luz.
Com certeza que, se eu fosse excêntrica e a minha carteira estivesse bem abastecida, eu teria ido, em pessoa, ao país do arroz encomendar o meu, tão querido e desejado, yo-yo. Mas como eu sou um daqueles vulgares utilitários dos transportes públicos desta nação, não tenho direito a entreter a minha alma infantil com brinquedos úteis e nostálgicos. Dizem eles!
Mas eis que um anjinho, muito provavelmente, chamado Castiel (Cas para os amigos) achou, por bem, fazer com que o amor me encontrasse. E obrigada, lojinha da vaca, por existires e me proporcionares estes pequenos prazeres (nada baratos, há que reclamar).


Nisto, quando chego a casa, depois de uma bela tarde de Starbucks e Augustinha com a minha Batata favorita, emerge o derradeiro e tão esperado momento. 
A caixa, com uma decoração digna de uma embalagem de sabonete à antiga, chama por mim: 

- Alice..Alice..
Eu olho para ela, ela olha para mim e eu penso:
vou-te descascar
E descasquei-a!




No entanto, para meu GRANDE DESAGRADO, o yo-yo não deu à luz, tal como estava escrito na caixa. Há uma loja em lisboa que vai receber uma reclamação muito brevemente, ai há, há.

Mas não há nada que substitua aquele sentimento quentinho que nos faz vibrar a retina quando algo que já quase que desistimos de procurar nos aparece à frente, sem a forçarmos no nosso mundo. E é assim, meus caros, que se faz o amor!


e NISTO...

 ...FUI!

21.4.12

Mas para que serve, afinal, o micro-ondas?



 
Depois de meses de empacotamento e dias de desempacotamento, cá estamos, na casa nova, um desconhecido paraíso. Um suposto começar de novo, embora quase tudo continue igual.
É estranha a sensação de querer tanto uma coisa, durante tanto tempo, que quando a temos quase que nos esquecemos de quanto suor dedicámos àquelas paredes.
Enquanto numa casa pequenina, quando um centavo cai no chão de um quatro todos os membros da família gritam "É meu!", agora o ritual é mais ou menos assim:

-ALICE!
-DIZ, MÃE!
momentos silenciosos de expectativa, longos o suficiente para se tornarem irritantes.
-ALICE!
-QUE FOI, MÃE?
-OH ALICE!
-SIM, MÃE! DIZ.
-ALICE JULIETA FIGUEIREDO!
BRRRRR. Ira sobe-me pelas veias, atiro o livro para o chão provocando um estrondo que poderia matar a população de, pelo menos, três terços da China. Mas não mata. Em vez disso, apenas abafa o meu grunhido frustrado (digno de um gorila). Caminho, pesadamente, com uma expressão vingativa no rosto. Desço as escadas, assegurando-me que cada passo meu soa por toda a casa e descola os azulejos do jardim zoológico do vizinho da frente e finalmente chego à cozinha. Respiro pouco fundo e coloco, então, uma máscara amigável e finjo uma voz dócil:
-O que queres mãe?
-Diz-me as horas.
A sua voz penetra nos meus ouvidos como mil agulhas que picam um rabiosque. Os números luminosos do micro-ondas começam a gritar aos meus olhos ferindo a minha patela que por milissegundos se liberta do domínio joelhíno. Há um pânico no interior do meu cérebro, com direito a fogo de artificio neuronal e tudo, que faz com que toda a angústia se transforme num murmurinho articulado que soa como:
-nove e trinta e seis.




E como se me chamasse Katniss, corro de ali para fora, pondo a minha sobrevivência à frente de tudo o que possa vir.



Porque há pessoas que ainda não perceberam que um micro-ondas é um mundo que serve para muitas outras coisas que não descongelar pão.



e NISTO...
 ...FUI!

21.11.11

Butt Freezing Benches


Porque de manhã está frio e nada como fazer bancos que esfriam o rabiosque. Não vá o pessoal adormecer.

Provavelmente, um deputado inteligente (Impossibru!) propôs uma medida para o combate à pouca produtividade matinal baseada no facto de as pessoas chegarem ao trabalho num estado de amolecimento pouco eficaz na progressão.


- Oh Chô primeiro ministro, isto o pessoal que trabalha neste país e que sustenta as despesas de manutenção da piscina lá de casa acorda cedo mas depois vai para o comboio e chega ao trabalho a dormir outra vez.

- Boa constatação! Palmas para o lindo deputado. tome lá um biscoito. O que propõe?

- Olhe, eu proponho Butt Freezing Benches nas estações, assim  aquelas pessoas que, armadas em espertas, apanham o comboio mais cedo com o intuito de não sofrerem o stress matinal que é correr nas filas das escadas, atropelar indivíduos pelo caminho e mesmo assim ficar preso nas portas automáticas da ultima carruagem da locomotiva, quando chegam aos bancos da estação para esperarem pela outra locomotiva não conseguem adormecer mais cinco minutos e chegam fresquinhas ao trabalho. O que acha Chô primeiro?



Diz NÃO à extorsão daqueles últimos cinco minutos!





e NISTO...
 ...FUI!

15.11.11

In these bodies we will live, In these bodies we will die

Numa moldura invisível, pequerrucha, de cabelo curto e castanho claro, expressão marota impressa no rosto, roendo a unha e vestida com um pijama cor de rosa.

É assim que descrevo, sem rodeios românticos, a fotografia da minha infância que está tão presente no meu dia-a-dia que até parece que me lembro de a ter tirado.
Não faço ideia porquê, mas sempre que passo, de pijama, pela esquina que fica entre o meu quarto e a casa de banho, sinto-me 16 anos mais nova, com menos um metro, tanto de altura como de cabelo e mesmo que o meu pijama não seja cor de rosa, sinto o impulso de pôr a unha entre os dentes e fazer aquele ar de quem vai fazer alguma..




Mas somehow eu cresci e já não sou aquela criatura amorosa que eu não me importava de ser para sempre. 

Peter, onde estavas tu quando eu era fofinha??
É triste ser apaixonada pelo meu eu infantil? Bahh se calhar é!

Ser grande sucks big time! Hei-de ter 50 anos e continuar a dizer isto.
E agora há que ir fazer coisas de gente crescida tais como beber chá acabadinho de fazer.


e NISTO...
 ...FUI!

14.11.11

Quentes e BOAS!

Uma daquelas profissões a que não se dá  muita importância é aos vendedores de castanhas. Mas quem é  que não gosta de sair do comboio, ao final do dia, ser encharcado com uma ventania gelada, que até nos faz esquecer que temos nariz, e a coisa mais quentinha nas redondezas ser um "Quentes e Boas!" acompanhada por um cheirinho a carvão queimado?

Antigamente, sabia-se que o Outono tinha chegado, nem tanto pelas folhas amareladas no chão, mas mais por estes senhores virem para a rua. Mas hoje em dia são poucos os resistentes.




Eu nunca gastei dinheiro meu numa dúzia de castanhas assadas, o que faz de mim mais uma criatura que, infelizmente, contribui para a extinção desta profissão. No entanto, fica aqui prometido que, caso me encontre sem emprego, vou vender castanhas assadas para a porta das estações dos comboios ou do metro ou seja do que for.

E vou ser muito feliz! Não extremamente feliz porque não há nada mais insuportável que uma pessoa tentar vender seja o que for enquanto transpira felicidade. Há que ser moderado!

A luta pela não extinção dos vendedores de castanhas começa aqui!


E sim, eu tenho um soito.




e NISTO...
 ...FUI!